Nos últimos dias tenho estado a ler um livro escrito por Gorbatchev dois anos e meio após o início do seu programa para a sociedade russa. Defendendo os seus argumentos com frases de Lenine, Gorbatchev dá-nos a sua visão da utopia socialista, que, segundo ele, irrompia em vários pontos do mundo, como uma revolução sem retorno. Em 1987 (dois anos antes da queda do Muro de Berlim) ainda se vivia sobre a ameaça de uma guerra nuclear, fomentada por ambos os lados da cortina, que sustentava toda a industria de armamento polarizando ainda mais os investimentos. Gorbatchev queixa-se da exploração feita pelo lado capitalista do mundo e apresenta o socialismo como a possibilidade de fuga dos problemas das sociedades, em geral, podendo este ser moldado em função das especificidades de cada um.
As ideias sociais de Gorbatchev são apelativas e simpáticas, apresentadas carismaticamente e tendo sempre os EUA como inimigos do povo. Apesar disso, ele defende que as reformas se teriam que se basear no povo (pelo povo, para o povo) e que, para serem reformas consolidadas teriam que ter o apoio verdadeiro deste e, portanto, que uma reforma seria tão abrangente quanto o for a democracia. Este terá sido o seu grande erro, que mais tarde viria a acabar com a união soviética e com o socialismo puro.
Lendo este livro quase 20 anos depois de ele ter sido escrito existem alguns problemas que se mantêm e outros que tiveram desenrolares mais ou menos esperados. Entre os problemas da época destacavam-se (ou eram destacados por MG) a discrepância
entre o nível de vida do terceiro mundo e o mundo ocidental; a dívida externa dos países em desenvolvimento; a guerra no Afeganistão (Gorbatchev alegava que os EUA queriam tomar conta da península); a decadência da ONU e o seu fim anunciado; a ingerência dos EUA em todo o mundo para não permitir que os outros países se desenvolvessem...
Mas, a questão mais marcante de todo o livro é a crença de que o socialismo é, não só o sistema mais justo, mas também o mais eficaz. Ao longo de todo o livro multiplicam-se as frases que defendem que "...qualquer dia o ocidente verá qual o sistema que sobreviveu..."; "...o melhor juiz para decidir quem é mais eficaz é a história..."; "...só a história nos dará razão..."; "...no fim verêmos qual é o melhor...". Esta radicalidade, quando analisada após a queda do muro, o fim da URSS e o desenrolar dos processos políticos nos países que daí resultaram e dos países nessa altura socialistas, terá uma interpretação bastante diferente da que lhe terá sido conferida na altura. Eu leio este livro como um livro de museu, uma recordação, uma curiosidade. A história mostrou-nos quem subsistiu, e não foi o socialismo.
Suponho que, se algum dia mandar uma carta a Gorbatchev, a sua resposta seja que o socialismo não falhou; ele ainda existe nos trabalhadores, deu às pessoas o direito da reinvidacação, o direito à greve e, talvez, acabaria por defender que o socialismo ainda está a ganhar. No entanto, não acredito que assim seja. A maneira como MG defende que iriamos descobrir quem era melhor é agora uma arma de arremesso contra a sua teoria.
Este programa podia não ser perfeito, mas era um bom programa, que tinha em conta a economia, o socialismo, o desenvolvimento a longo prazo (são-nos apresentados objectivos até ao ano 2000), mas desabou. Mas o que falhou? Suponho que falhou no facto de se basear nas pessoas. A Perestroika baseava-se na criação de várias escadas na sociedade em que, entre cada cidadão e o presidente haveria uma linha de interlocutores, que se representariam sequencialmente. No entanto, isto pressopunha que não poderia haver elementos fracos na cadeia. Isso, como sabemos, funciona em teoria, nos livros e nos discursos da esquerda mas, já nem Fidel Castro acredita nisso. Obviamente, que a revolução baseada no povo acabou como sendo a revolução para o povo (cada um fazia a revolução para si próprio). Assim como a revolução do 25 de Abril, em Portugal não foi uma revolução para o povo (foi para os militares e, mais tarde, para o PCP); assim como a revolução cubana não foi para o povo; assim como é raro encontrar (em qualquer momento ou lugar históricos) revoluções feitas para todos.
Esta questão, abordada no último parágrafo, traz-nos até à sociedade europeia actual, e até todos os militantes da Internacional Socialista. A esquerda ainda acredita que a revolução vai vingar e que ela é possível. A discussão esquerda/direita nunca poderá ter um consenso, porque ela é feita a níveis diferentes. A Perestroika dá livros mais bonitos que o Capitalismo, mas a primeira não funciona! Obviamente, que se alguém me diz "eu sou contra o desemprego, e acho que as pessoas deviam ser aumentadas em 1000%"...eu também sou, mas isso não é exequível. As ideias do BE serão sempre melhores que as do PSD, as ideias do BE serão sempre mais bonitas e mais "amigas" que as do PSD. Mas nunca funcionarão. A direita não pode permitir que a discussão seja feita ao nível teórico porque aí nunca ganhará. A direita tem que basear a discussão ao nível do pragmatismo porque é aí que pode mostrar que ganha.
Os EUA chegaram a essa conclusão há muito tempo mas, naturalmente, são acusados de ser responsáveis por várias injustiças e vergonhas. A sua sociedade não funciona tão bem nos media europeus, os sindicatos não têm o mesmo poder que cá, o sistema de saúde não é público,a educação privada representa uma grande percentagem so sistema educacional, o sistema político é menos controlado. No entanto, os trabalhadores deles têm mais direitos, o serviço de saúde é melhor, a educação é melhor, a representatividade da opinião é maior... Naturalmente, qualquer filósofo ou intelectual europeu quando analisa os sistema americano clama que é imoral, não protege os direitos fundamentais. MAS AS PESSOAS VIVEM MELHOR QUE NA EUROPA SOCIALISTA!
É importante que a direita, principalmente a direita liberal, consiga centrar a discussão nas ideias, e não nos programas, e que não se cole aos media e aos preconceitos da esquerda. Bush ganhou com ideias e actos, não ganhou com "flores vocabulares". As pessoas não querem saber de quem fala melhor, querem é comida no prato, no fim do mês.
O capitalismo funciona, o socialismo não. Nós sabemos; a história mostrou-nos...