Sábado, Dezembro 18, 2004

Em defesa dos interesses (des)instalados

O facto de Rui Rio ter defendido que a política não se deve misturar com o futebol e, posteriormente, defender que a classe política actual não se afirma, tem feito levantar todos os defensores do regime, e ainda os outros! Até o "senhor anti-regime" Vasco Pulido Valente se insurgiu contra o presidente da CMP.

A tendência para o poder manter o poder tem especial significado em portugal. Este hábito revela-se de forma especial sempre que algum "poderoso" está em perigo. Nessa altura toda a gente aparece a ajudar. O facto de Rui Rio ter dito que a investigação do "apito dourado" lhe estava a dar razão deveria ter sido ouvida como algo lógico; mas ai de quem diga algo lógico! Se Fernando Gomes, Nuno Cardoso, Pinto da Costa e Valentim Loureiro estão indiciados em processos de tribunal, e toda a gente diz "que esta gente não é séria", não há que mencionar isso; apenas devemos todos relevar o quão boas pessoas eles são, e dizer que não acreditamos que as acusações são verdadeiras. Se alguém não faz isso, o melhor é atacá-lo. Naturalmente que ninguém pode ser julgado em praça pública, mas também ninguém pode obrigar Rui Rio a apoiar interesses que só são importantes para os próprios interesses.

É, também, uma vergonha a maneira como o poder político se verga perante o futebol; é vergonhosa a notícia que saiu nos vários jornais de hoje em que o PS agradece o apoio de Pinto da Costa, que voltou a "chutar para a frente" e até ameaçou candidatar-se à CMP. Também Rui Moreira, outro "poderoso", amigo dos interesses (presidente da ACP nos tempos livres) veio defender PC, "quem não conhece bem o suficiente", sequer.


Quanto à crónica de hoje de VPL, ele deturpou o que Rui Rio disse dando uma imagem deste como um defensor da autoridade acima da opinião, quando o presidente da CMP tem tido como prioridade defender as pessoas acima dos interesses económicos ou políticos.
É incrível que qualquer pessoa que não defenda os poderes instalados seja alvo de tentativas de aniquilação por parte de toda a corja que ronda estes poderes; e, quando alguém diz o que toda a gente sabe, seja atacado.

Toda a gente sabe que o futebol vive da corrupção, a política vive de interesses e favores, a administração pública vive de cunhas, os empresários vivem dos favores que os políticos trocam por apoios. Mas que isto nunca seja dito em público; e todos os casos que o têm demonstrado, são apenas enganos e cabalas!

Se Rui Rio não quer misturar a política com o futebol, tem razão! Rui Rio também não se devia dar com a maioria dos políticos, vários empresários e empreiteiros, mas é obrigado a isso...

Apesar de tudo, a maioria das pessoas do futebol não são corruptas, alguns políticos não vivem de interesses, muitas pessoas não vivem de favores, e muitos empresários são-o por mérito próprio. Mas esses são os que não têm poder e que vão presos mesmo que estejam inocentes. E esses são os que, mesmo que quisessem, dificilmente pressionariam quem quer que fosse.

Quarta-feira, Dezembro 15, 2004

Dúvida inquietante

Será que é melhor eu votar no PS para tentar evitar que este faça uma coligação com o BE?

Quinta-feira, Dezembro 09, 2004

Sampaio (CRISE 7(crise*infinito))

Sampaio prometeu que teria um segundo mandato em que seria mais activo, pois já não tinha a pressão eleitoral da reeleição (já o facto de assumir que governou eleitoralmente no primeiro mandato é mau). Só que ninguém acreditaria que um presidente activo pudesse ser tão mau.

Desde o dia em que Durão decidiu ir para Bruxelas, o PR só tem mostrado que era melhor ele não estar lá. O Presidente da República, eleito para "olhar pelo país" decidiu governar em oposição ao governo, os eleitos "para governar".

O regime português é um regime contraditório. Existe um Presidente da República, eleito nominalmente, e existe um governo eleito pelas suas políticas e ideias. Mas o PR é que decide se aceita essas políticas. Se o sr. Sampaio acha que sabe decidir o que é bom para o país, devería ser candidato a PM e apresentar as suas propostas.

Este governo não deveria ter sido demitido, pois tem maioria parlamentar mas, ao decidir-se por esta opção, Sampaio abriu um precedente perigoso com o objectivo de nos levar para um regime semelhante ao francês, em que o presidente decide se se devem mudar ministros ou quais têm que ser as prioridades do governo. Além desta decisão em relação ao governo, o PR defendeu que deve ser ele a defender os presidentes para as entidades reguladoras, em nome da transparência.
Além destes dois "acontecimentos", desde há 6 anos, Sampaio semanalmente a mostrar-se preocupado com algo, a pedir estabilidade, e a vetar leis das quais não gosta.

A atitude e acções do PR pressupõe uma imparcialidade e uma superioridade intelectual deste em relação a qualquer outra pessoa. Porque é que o PR há de ser melhor que o PM? Porque não poderia Santana Lopes ter demitido Sampaio? Se calhar teria sido melhor.

O argumento de que o PR é eleito directamente não prova que a escolha seja boa. E o argumento de que é importante ter um PR para se o governo for mau (como defendem alguns que aconteceu no caso de PSL), pode ser rebatido pois o PR também pode ser mau, e não é controlado por ninguém! (Se houvesse alguém acima dele, provavelmente já o teria demitido.)

Portanto, as instituições deveriam ser repensadas. Portugal deveria ter um Parlamento e um Governo (eleitos separadamente) e um Tribunal Constitucional (com juízes com mandatos superiores a 2 mandatos legislativos (que deveria ser o limite por PM), nomeados por 66% do Parlamento). O Parlamento controlava o governo, o governo tomava medidas legislativas e o Tribunal Constitucional controlava a concordância destes dois orgãos e medidas com a constituição e lei.
Deste modo, cada orgão saberia quais as suas funções e as pessoas saberiam em que estavam a votar.


Um sistema com Presidente da República é mau; se esse presidente da República for o Sampaio, é pior!...

Adivinha

Estavam 10 milhões de pessoas num barco sem destino. O Capitão era o Jorge; os sub-Capitães eram o Pedro, o Paulo, o José, o Jerónimo e o Francisco.

Consegue adivinhar o apelido deles? E como se chama o barco?



PS: Bom editorial no DN.

Segunda-feira, Dezembro 06, 2004

O sábio Presidente

O Presidente da República tem ultimamente sido alvo de um enorme protagonismo, ele decidiu aprovar e reprovar leis e governos conforme um critério que impossivelmente poderia ser completamente imparcial e objectivo.
Está nas mãos de uma pessoa com uma "cor" partidária geralmente bem definida o poder de passar por cima do voto parlamentar, fazer uso das suas interpretações da constituição ou tomar decisões políticas soberanas. E mais: não tem qualquer responsabilidade de governação e, como tal, têm sempre uma popularidade incrivelmente alta (tal como fenómenos como o de Marcelo e o de Guterres, que pela sua falta de actividade política recente vêem melhorado o seu "ranking político").
O PR tem o papel de sábio corrector de governação, eleito pelas mesmas pessoas que elegeram o governo, ainda por cima com um formato "prémio carreira".
Portugal ainda é um país que tem uma constituição e um tribunal constitucional, e como tal não seria estranho se fosse este o único a julgar a actuação governativa com base exclusiva na constituição, sem conselhos de notáveis e decisões pessoais.
Sendo assim as funções do PR seriam reduzidas ao aumento do politicamente correcto no ambiente político e ao contributo decorativo, não valeria a pena o esforço.
O regime semi-presidencialista em que vivemos é completamente ridículo e falsamente seguro. Assim como não é garantido que o povo vote num governo competente, também não é seguro que o PR o seja, no entanto este último é eleito para controlar o primeiro, como se fosse infalível e seguramente superior.
E que ninguém se lembre de criar um outro cargo, certamente prestigiante e só ao alcançe dos políticos mais conceituados, para avaliar as decisões do PR.

Domingo, Dezembro 05, 2004

PSD (CRISE 6)

Está a ser absolutamente incompreensível (se bem que, pensando que é PSL o presidente, talvez seja mais compreensível) a maneira como o PSD está a preparar as eleições de Fevereiro. Após a reunião em que a Comissão Política nada decidiu, ontem o Conselho Nacional não decidiu nada! Deu carta branca ao presidente do partido para negociar com quem quisesse, como quisesse. Esta decisão é a certeza que teremos uma coligação PSD/PP nos moldes em que o PP a decidir; isto para que PSL possa culpar Portas pela derrota eleitoral (como dizia Vasco Pulido Valente no artigo de ontem).
Todas estas brincadeiras eleitorais que têm decorrido à frente de toda a gente são um insulto aos militantes do PSD que demonstraram a sua vontade no congresso de Barcelos (não pode ter sido há pouco tempo para legitimar Santana, mas há muito para não para legitimar a opinião dos delegados). Esta coligação terá como consequências um afastamento das bases devido à falta de princípios da direcção. Esta jogada tem como objectivo apenas obter ganhos eleitorais não olhando a qualquer meio. Se PSL achar que ganha com isso, até se coliga com o PPM (que já se disponibilizou para se coligar).

A pior parte desta história é a falta de alternativas. Deixar PSL/PP voltarem para o Governo é preocupante; mas deixar Sócrates distribuir os seus amigos por Lisboa também o é. (Na edição de hoje d'A Capital é anunciado que o PS deixará cair a lei das rendas e o fim das SCUTs, se eleito)
É difícil decidir se queremos 4 anos de Santana e Santanetes ou de Sócrates e Guterretes!

Quem quer que ganhe, nós perdemos!...

Quarta-feira, Dezembro 01, 2004

Direita (CRISE 5)

O PP limitou o seu apoio ao eleitorado fixo, o PSD limitou o seu apoio a uma parte do seu eleitorado fixo (já nem todos os "laranjinhas" votam em PSL).
Nas próximas eleições, a direita toda vai reforçar a participação do seu eleitorado fixo, agradará aos seus militantes mas, se não alterar os candidatos legislativos ,vai perder o eleitorado de centro e o eleitorado flutuante que apenas pode ser recuperado se a "moeda boa" voltar e consiga mobilizar as pessoas atráves de projectos de longo prazo e discursos carismáticos (não é o mesmo que demagógico; portanto não serve PSL!). Há vários nomes possíveis, só é preciso escolher um!

Apesar de isto parecer bastante óbvio para qualquer pessoa "comum" (os não políticos), parece que os políticos da direita não estão ainda prontos para assumir que falharam. Isso só irá acontecer depois de obterem uma derrota gigante nas próximas eleições.

Pior para o Monteiro...pior para o Portas...pior para o Santana...melhor para Sócrates...melhor para Louçã!

PP (CRISE 4)

Paulo Portas falou há bocado e anunciou que vai começar a preparar as eleições sozinho. Aproveitou para começar a "campanha positiva" e realçou quão bem dirigiu o seu ministério.

Apesar das críticas de que foi alvo desde que entrou para o governo de que aproveitaria qualquer momento para destruir a coligação e retirar dividendos eleitorais, a participação do PP foi positiva, em geral, tendo defendido os seus interesses e valores de uma forma racional, tendo explorado as fraquezas do PSD aquando da necessidade de fazer concessões.

Portas atingiu os seus objectivos: agradou aos seus eleitores, defendeu os seus interesses, conseguiu lugares para os seus amigos e, no fim, ainda vai poder defender que os melhores ministérios foram os seus! De quem é a culpa? Do PSD (principalmente desde que Durão foi embora). Portas conseguiu ficar a vêr de fora as confusões dos últimos quatro meses e ainda pôde enviar uma mensagem: "a quem deu pretextos ao primeiro-ministro que pense nos seus actos e palavras".

Apesar da minha discordância crónica com tudo o que PP (Portas) faz, ele passou bem pelo governo sem causar qualquer distúrbio de que era acusado de poder ser responsável. Além disso, Portas teve momentos em que o poderia ter feito (foram-lhes dados vários pretextos) e manteve um sentido de estado que será de realçar.
No entanto, esta passagem pelo poder tirar-lhe-à alguma margem de manobra em termos de campanha eleitoral porque já não poderá basear os seus discursos apenas na sua demagogia habitual. Reduzirá o número de eleitores tendo, no entanto, demonstrado que pode defender um conjunto de valores e ideias, o que cairá bem dentro do seu eleitorado fixo.

Realço apenas mais um ponto do discurso de PP que disse que quer "reforçar os valores liberais para defender a economia"... acho que alguém devia ouvir isto!

Ainda sem alternativas

Vêem aí eleições (!), que é por definição quando todos os portugueses (os que quiserem), podem exprimir a sua genuina convicção política e atribuir a confiança ao que consideram o melhor projecto governativo.
Dito isto parece que vamos no bom caminho, mas na prática as escolhas estão muito limitadas, principalmente porque infelizmente não nos podemos de dar ao luxo de simplesmente votar na ideologia que consideramos correcta (se é que ela está sequer disponível), porque à frente da ideologia estão pessoas sobre as quais não podemos partir do princípio que são sérias, convictas e responsáveis.
É frustrante (e já me aconteceu) olhar para um boletim de voto e não ter vontade que ganhe quem quer que seja, e receio bem que vá acontecer outra vez.
Por um lado a ausência de um partido liberal a sério (já ouvi dizer que o PND é um partido liberal, mas ainda falta a parte do "a sério") afecta em boa parte a minha frustração, e por outro o desastre completo da liderança do PSD, que é, supostamente, a alternativa mais interessante enquanto o liberalismo é pecado neste país.
Terei portanto, que conviver agora com uma euforia socialista durante aproximadamente os próximos quatro anos (não posso precisar concretamente o período de governação), que não é mais do que a ausência de alternativas convincentes, e que é resultante de um popular "tudo menos este governo".
Será que teremos de ter a economia e a sociedade de um país dependente das infantilidades governativas? A responsabilidade individual não será mais justa do que a responsabilidade colectiva, em que ninguém é responsável?