Lúcia de Jesus
A morte da irmã Lúcia caiu como uma estrondosa e espectacular bomba na opinião pública. Nos media e no meio político, não se resiste à calorosa homenagem politicamente correcta, em nome de toda a nação (porque o estado é laico, mas que não se caia nas mãos do demónio!) concordante com a imagem do povo emocionado, cheio de fé, transmitida pela televisão. Por outro lado, grande parte da blogosfera, com um maior à vontade, politicamente incorrecta, desencadeia um impiedoso e insaciável ataque à igreja católica, dando graças a deus (salvo seja), pelo oportuno pretexto.
Tudo isto porque, por momentos, o país se debruçou sobre uma peculiar vida muito ligada às entranhas de uma certa filosofia católica. Para uma grande parte dos crentes a isolação completa do mundo e a vida de sacrifício são causa de grande admiração, pois constituem escolhas humildes de santas pessoas que se entregam para servir o bem. O grande problema provém da generalização por parte da igreja de que o sofrimento e a privação são louváveis por si só e não por possíveis consequências benéficas. Tornaram-se o marketing do catolicismo, que prodigiosamente foi incutido nos fiéis.
Esta mesma linha de pensamento, convenceu então uma jovem que, por ter a felicidade de ser escolhida para assistir a uns milagres, o caminho para a sua eternidade e glória passava pela sua clausura. Note-se que não existiu qualquer contributo para a humanidade na "sagrada existência" de Lúcia: as aparições e revelações (mesmo que por absurdo tivessem acontecido) foram completamente irrelevantes, delas não resultou absolutamente nenhuma previsão útil, também o malabarismo solar de nada serviu a alguém que fosse, e muito menos a "magnânime prisão" da consagrada vidente beneficiou fosse quem fosse, nem ela própria.
Ainda por cima vivia-se então no Estado Novo, e nada como um protagonismo religioso nacional para entreter o povo.
No entanto, é a heroína nacional do momento (ela até falou com o Papa!!), e esfrega as mãos de contente a igreja, que através da providencial propaganda, vem renovando alguma força, que o tempo vai desgastando, como instituição conservadora que é.

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