Pré-campanha - os grandes
O ambiente de pré-campanha vivido durante as últimas semanas tem revelado todo o esplendor da mediocridade da política portuguesa e ainda algumas surpresas curiosas.
Os últimos momentos da governação PP/PSD, que levaram ao seu fim, deixaram o PS numa confortável posição de presumido vencedor nestas eleições, o que talvez explique a pouca preocupação com que têm vindo a explicar o conteúdo do seu programa, onde tudo parece que, inexplicavelmente, vai resultar às mil maravilhas.
Sócrates diz que quer criar 150 000 novos empregos. Onde? Não se sabe, mas como pretende também reduzir a função pública não será lá certamente, por outro lado 150 000 boys seria demasiado escandaloso, pelo que suponho que a grande parte destes empregos deverá ter origem na iniciativa privada. Ora para criar mais emprego no sector privado é necessário fazer crescer a economia. Como? Choque tecnológico! Resolve tudo como que por magia!
No entanto surge outro problema: o choque tecnológico custa muito dinheiro. Mas a solução socialista é simples, o investimento público do choque milagroso não deveria contar para o défice, como se isso por si só servisse de pagamento.
Esta postura de optimismo baseada em coisa nenhuma, associada a um líder mal preparado que precisa de um António Vitorino e de um Jorge Coelho para lhe dizer o que deve fazer e dizer
parecia já suficientemente má quando certo dia surge António Guterres, que no seu estilo, não diz absolutamente nada, com Sócrates a lamber-lhe as botas, venerando o ícone do insucesso socialista em Portugal.
Do outro lado temos o PSD, que neste momento está em guerra civil, onde a liderança de Santana Lopes é fortemente questionada, e tem às costas o peso de uma vergonhosa governação marcada pela descoordenção entre ministros, populismo, total inexperiência governativa e incómodo perante a crítica.
O discurso do PSD tem sido marcado, até agora, pela quase nulidade de conteúdo, dando maior relevância à vitimização do seu líder, sem sequer explorar as principais fragilidades do projecto socialista. As vagas referências a um choque de gestão e a um ambicioso aumento da produtividade foram ainda muito mal explicadas.
O PSD de Santana Lopes pretende dar seguimento, sem grandes novidades, ao conjunto de reformas que tentou implementar durante os quatro meses em que esteve à frente no governo: algumas propostas interessantes, mas com uma enorme desorganização.
Particularmente curiosa é a não referência ao MPT e ao PPM, com os quais está coligado e supostamente teria qualquer coisa a dizer, nem que seja a razão desta estranha aliança.
Para finalizar, fomos brindados com um surreal artigo de Freitas do Amaral, onde este claramente elege o programa do PS como superior ao do PSD, ao ler o artigo deparamos com uma razoável variedade de assuntos sobre os quais Freitas do Amaral diz que o PS propõe medidas muito melhores que o PSD, só não se sabe é porquê, pois ele não chegou a falar sobre essa parte.
Diz ele também que votar em branco é uma renúncia à cidadania, o que considero absurdo, uma vez que este representa a opinião válida de não confiar em nenhum partido, num determinado momento, para uma governação minimamente razoável de Portugal, o que não é nada descabido perante o panorama actual. Uma elevada percentagem de votos em branco pode incentivar os partidos a mudar a sua atitude no futuro.
